“Um Dia de Cão”

” Um Dia de Cão”

 

Jaque Machado

 

Era um dia de cão, como qualquer outro.

Sete horas e menos trinta e um centavos da manhã, o relógio-ponto relinchava: eu e me cartão completamos quinze anos de batalha canina.

Entrei. Guardei meus objetos. Comecei a trabalhar. Num canto obscuro da sala, onde as sombras tomavam formas desconhecidas e horripilantes, meu chefe, com um olhar distante, batia ritmicamente a caneta por sobre os papéis, tentando responder a pergunta mais importante, talvez a mais importante pergunta já formulada: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Era este o seu serviço.

Então, rompendo o silêncio ele dispara um tiro contra mim:

-Você chegou atrasada Lessie.

A luz verde acendeu, e eu pude latir:

-Trabalhei até tarde ontem, Meu Senhor.

Ele desviou o olhar em minha direção:

-Muito bem, seu bolo de pêlos, que isto não se repita!

Esperei a luz verde acender, porém sem sucesso. Gani baixinho, sem contrariá-lo.

-Vá lá embaixo e pegue minha correspondência! -ordenou o Senhor das Sombras, arremessando um graveto pelas escadas. Corri para buscá-lo, na velocidade de 0,002 centavos de real por segundo, a velocidade da luz.

-Muito bem, muito bem!- disse o chefe alisando meu pêlo e pegando a correspondência da minha boca, enquanto eu babava alguns centilitros de centavos.

-Seu pêlo está sedoso Lessie, o que anda fazendo?

-Ando trabalhando meu Senhor.- disse, logo a pós a luz verde piscar, voltando à meu posto e abanando o rabo, feliz com o elogio.

Dez horas de real e vinte e quatro centavos da manhã, o telefone toca:

-Grande agência multinacional de serviços em geral, atendente Lessie, bom dia!

-Gostaria de saber qual o valor da taxa de transferência de arrecadamentos exorbitantes e aviso prévio para funcionários.

-Para animais ou chefes?

-Para animais, por favor.

-Só um minuto… Vinte e cinco por cento do Warrant total do serviço, descontado em folha, para animais de grande porte e pequeno porte. A taxa para aviso prévio não consta em nossas listas, senhora. O serviço de aviso prévio para animais foi cancelado. Segundo a Agência Nacional do Trabalho Escravo, esta prestação não é mais necessária. Mais alguma informação?

-Não, muito obrigado.

Meio dia e meio centavo de real, o Senhor das Sombras entrega nosso ticket refeição:

“VALE UMA LATA DE VENTO EMBALADO À VÁCUO.”

Comi rápido para voltar em tempo ao serviço.

Meio dia, dois minutos e mais setenta e quatro centavos de segundo, ainda com o estômago cheio de nadinhas minimamente processados, bati meu cartão, antes mesmo da grande Trombeta tocar recolhendo os funcionários.

As sombras retorciam-se detrás da cadeira do meu chefe enquanto seu rosto era tomado por uma expressão bizarra e escurecida. Como se a maldade assumisse uma forma e repousasse sobre sua face. A tenebrosidade ao seu redor aumentava, até que ele diz, com uma voz gutural:

-Entregue a ordem de pagamento aos funcionários. Vá Lessie! Corra!

Corri na velocidade de 0,00005 centavos por segundo, com a língua pendurada para fora da boca.

Como eu queria naquela tarde, estar rolando na grama, com um grande osso suculento entre os dentes. Não posso pensar nisto, minha boca se enche de saliva. Babei no teclado por dois segundos e menos vinte e quatro centavos.

-Pare de babar Lessie, volte ao serviço!- imediatamente a luz verde piscou:

-Sim, Meu Senhor!

Seis horas de real e zero centavos da tarde, a luz vermelha acende. Alvoroço entre os funcionários: quem seria demitido? Simlabá, o leão em depressão? Dumbulho, o elefante anêmico? Felipefler, o golfinho desidratado?

Fui chamada pelo Senhor das Sombras:

-Estamos demitindo os animais Lessie, você será a primeira a ser mandada embora. Contrataremos folhas de bananeiras secas: são econômicas, não falam, e não fazem coco nas escadas. Não há mais aviso prévio. Já pode ir.

Esperei ainda a luz verde acender por dois minutos de real e menos treze mil centavos. Sem sucesso. Meu chefe me espantou arremessando uma pedra e batendo o pé no chão:

-Sai cachorro!

Sem emprego e sem perspectivas, juntei-me à Associação de Animais de Pequeno Porte Desempregados, modalidade matilha: perambulei pelas ruas com os outros cães, virando lixeiras e fazendo sexo ao ar livre.

 

@jaquemachadoescritora

 

 

 

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