Sobre perder

Sobre perder 

Jaque Machado 

“Depois de muito ler e estudar as obras de Joseph Campbell, as diversas teorias sobre mitos e como se refletem no comportamento coletivo, cheguei em um lembrança, numa fazenda, por volta dos seis anos.

Era um estábulo úmido, chão de terra escura batida, várias divisórias de madeira rústica, da largura de um tronco de árvore.

Os animais pastavam suas camas de plantas ressequidas. Vacas balançavam as orelhas, espantando as moscas, os pequenos olhos opacos observando meu trajeto.

Cheiro de esterco, de couro vivo e sujo. Cheiro de urina de vaca. De dentro do estábulo a porta parecia uma grande janela de luz cegante, de fora uma cortina de escuridão.

Pega a grama, dá na boca dela!”, o capataz dizia, mas estava em dúvida, com medo. A boca imensa se movendo desencontra, os dentes amarelados, imensos, crestados de tártaro e restos de pasto. Os lábios subindo e descendo com uma imensa língua de bivalve. Narinas tingidas  de cascão, moscas andando com rapidez por todo lado, entrando e saindo dos orifícios nasais, até serem espantadas pela sacudida da cabeça da vaca. Ela continuou olhando para mim. Os olhos saltados para fora do rosto, quer dizer algo e não diz, só observa. E aquela calma faz parecer que sabe de tudo. Ficamos com medo de coisas assim, temi ser descoberta acossada pelos meus medos, medos pequenos, irrelevantes e incompreensíveis para muitos, mas profundos para mim.

Tive medo que minha mão fosse engolida, que a vaca resfolegasse, que saísse troteando e passasse por cima de mim. Que sugasse o pasto tão rápido que não teria oportunidade de puxar o braço, que acabaria parando em alguns dos estômagos dela. Tinha medo da imensa vaca de tetas cheias. Aliás, tinha medo de tocar no seu corpo morno, no pelo assentado, tinha medo das patas pesadas e das coxas musculosas. A vaca me causava pânico!

Pega o pasto e põe na boca do Bicho!”, o capataz já perdera a paciência, e como se eu não soubesse o que deveria ser feito, ele mesmo pegou a grana e entregou na boca da vaca, mostrando o óbvio.

Fiquei com mais medo da vaca, e agora do impaciente capataz também.

Uma vaca é um animal desafiador e vê-la de perto não é nada confortável. Nos tornamos pequenos e sentimos receio de tocar, e apertar, de fazer movimentos bruscos. Uma memória atávica que invoca respeito.

Peguei a grama, as mãos trêmulas.. Estendi o braço pequeno através da sebe, mal conseguia chegar perto. Os olhos fechados, apertados, a cabeça virada. Mas não senti nada, nenhum puxão. Espiei, a vaca estava deitada, olhando para mim, mascando seu pasto e ignorando minha oferta. Olhei o capataz, ele sacudiu a cabeça e mexeu no chapéu: “da pra ela!”.

Estiquei mais o braço.

As narinas do bicho remexeram e o corpo deu impulso se colocando de pé, moveu-se rapidamente na minha direção. Um verdadeiro susto e de imediato abri a mão, instintivo. A grama caiu no meio do pasto velho, e eu caí no chão.

O capataz riu. Que graça há no medo? O medo é algo a ser respeitado, confrontado na medida certa, mas respeitado.

E isso me joga diretamente em Campbell, sua famosa jornada do herói. Não somos feitos de conquistas, somos feitos de trajetos, grandes vacas estarão à nossa frente, talvez venhamos a cair sentados no chão ao alimentá-las, talvez não tenhamos medo do inofensivo, ou ainda, manifestemos um medo tão visceral que não saberemos lidar. A jornada não é sobre pegar a espada e matar o monstro, depois pegar o tesouro, o caminho do herói é feito de desafiar a si mesmo e entrar no estábulo, de onde, na luz da rua, tudo é só escuridão.

Jaque Machado”

 

 

@jaquemachadoescritora

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