Monika

Monika: a rebeldia, a Liberdade e o Desejo

Por Pedro Albuquerque

Nesta obra de Bergman, há o enfoque direcionado ao ato de transgressão moral proferido por Harry e Monika, um jovem casal que decide abandonar seus compromissos corriqueiros para se aventurarem em uma saga de barco pelas águas do Mar Báltico.

    Monika, fruto de uma família pobre, repleta de membros com o patriarca alcoólatra, é uma jovem idealizadora de um futuro ardorosamente otimista, longe das opressões familiares e sociais.
No início do filme, Monika é apresentada como distraída, alienada, ingênua e seus traços de imaturidade se enrijecem ao longo da obra, alcançando o apogeu nos momentos finais. Monika sofre frequentes assédios de seus companheiros de trabalho; reflexos de uma sociedade tipicamente conservadora que menospreza e apequena a figura da mulher, tratada apenas como um frágil objeto de prazer, de gozo. Comparado com Monika, Harry – empregado em uma loja de porcelanas – possui índole mais pragmática. Também é explorado e humilhado em seu ofício, condições que contribuem para com sua aproximação em relação aos anseios quiméricos de Monika, inflando sua centelha de revolta.

    As personagens se encontram, pela primeira vez, por acaso, em uma lanchonete. Lá, Monika aborda Harry. Este, com a iniciativa, a convida para assistirem à uma sessão de cinema. Após a sessão de cinema, os dois partem para uma caminhada juntos por Estocolmo. O primeiro beijo deles se dá em um belíssimo plano onde os dois são enquadrados em profundidade de campo com o belo panorama da charmosa Estocolmo refulgindo ao fundo, plano que gera uma áurea terna, afável.

    O relacionamento de Harry e Monika se intensifica cada vez mais. Em certa ocasião, Monika discute com o seu pai, que chega embriagado em casa. O pai acaba por agredi-la, fazendo-a fugir de casa. Sem um rumo pelo qual tomar, Monika vai à procura de Harry para pedir-lhe abrigo. Não podendo abriga-la devido à resistência da tia, ele a leva para um barco pertencente ao pai dele, atracado em um cais nos canais de Estocolmo, oferecendo-se, assim, um abrigo temporário para a jovem. Monika, em devido paralelo com sua natureza de quimeras, diz a Harry para abrir mão do emprego na loja de porcelanas e retirar-se com ela em fuga. Inicialmente, Harry retém-se, entretanto, no dia seguinte, após mais um turno de insultos e intransigência no trabalho, entra em discussão com seus superiores e opta pela demissão. Ele começa, pois, a levar em conta a aventura proposta por Monika de largar por completo os compromissos pessoais ligados à família e à cidade, furtar o barco de seu pai e se arremessar, junto da amada, em direção ao novo, ao contingente.

    O retrato da rebeldia dos dois jovens, na busca pela alegria, satisfação dos prazeres, amor irrestrito e liberdade, não revela apenas os princípios de ambos, revela os princípios de uma geração de jovens submetidos às limitações da já mencionada sociedade religiosa, ensimesmada e profundamente conservadora típica dos anos cinquenta e início dos anos sessenta do século XX, no ocidente que, guarnecida dos meios de violência e repressão, esmigalha as expectativas dos jovens e os transformam em robôs programados para seguirem ordens, minando-lhes a criatividade, os potenciais e virtudes, levando ao aumento subsequente e gradativo da revolta juvenil que encontrará seu zênite nas barricadas parisienses do maio de sessenta e oito e nos diversos movimentos de contracultura espalhados pelo mundo.

    Nas gélidas águas do Mar Báltico, abordo do barco ou nas pequenas ilhas, Harry e Monika vivem os sabores da “emancipação”, retratados em cenas de nudez explícita e bastante erotismo que engendraram certo desconforto à época em que a obra foi lançada, no ano de 1953. Os jovens experimentam doses de loucura e até dialogam com o que os surrealistas originários – mais especificamente André Breton – chamariam de “beleza convulsiva”, transposta a um cenário físico. Não obstante, experimentam também os dissabores de toda essa liberdade em demasia, dessa libertinagem. Harry e Monika degustaram da dinâmica de fazer escolhas por si próprios e tiveram de arcar com as consequências dessas escolhas, muitas de sabor amargo como, por exemplo, o ataque, de um viajante desconhecido, à embarcação empossada pelos jovens protagonistas e a inesperada gravidez de Monika: indícios do aspecto de exímio e agudo existencialismo característico do retrato cinematográfico de Bergman.

    Fatores como a gravidez de Monika e a escassez de alimentos faz com que os jovens retornem para Estocolmo. De volta a Estocolmo, Harry consegue um emprego numa metalurgia, inicia seus estudos e se casa com Monika. Monika dá à luz a criança, uma menina. Monika não se faz tão zelosa à criança quanto Harry. O espírito idealista da protagonista dá lugar a um espírito consumista, irresponsável e negligente. Quando volta de uma empreitada em Lund, no sul da Suécia, Harry se depara com um ato de adultério por parte de Monika; eles se envolvem em uma discussão. Monika oferece a desculpa de que Harry se atenta apenas ao serviço e aos estudos, não a contemplando com a devida atenção. A jovem reclama também, de não ter dinheiro o suficiente para adquirir os bens materiais do seu interesse. A discussão, primeiramente intermediada pelo âmbito da linguagem falada, entra em um transe de comunicação não verbal – bastante presente no cinema de Bergman – que acomete tanto Monika quanto Harry, eis um dos ápices do filme: trazendo à tona tal transe, Bergman capta com grande maestria o estado de choque que se apodera de nós, seres humanos, em ocasiões onde há intenso conflito de afetos os quais não conseguimos extravasar senão por gestos e movimentos físicos não diretamente ligados ao trato dinâmico do aparelho fonador, aos exemplos  do choro, das diferentes modulações faciais e do devir intenso e vacilante que pulsa pelos músculos e membros diversos do corpo. É uma forma de linguagem colocada em práxis durante o enfrentamento de aflições e dilemas paradoxais, extremamente dilacerantes, vibrantes e esfumaçados.

    Como produto dos fatores das adversidades, Monika e Harry se divorciaram. A jovem acabou abandonando a filha, abandono que ilustra a irresponsabilidade e o egoísmo de Monika.

    Harry acaba tendo que tomar os cuidados da criança sem os auxílios da mãe e aparenta que irá fazê-lo com grande devoção e afeição. Aqui, mais uma vez, sentimos as consequências de uma deliberação, de uma escolha, do peso da liberdade.

    Monika e o Desejo…. desejo de prazer…. desejo do além…. desejo do abstrato… desejo do imaterial…. desejo do infinito…. desejo de sempre mais e mais…. desejo do utópico…. Monika, uma jovem cuja chama do desejo reluz tão resplandecente no cerne do ser, que acaba por ofuscar o curso da vida objetiva, prática, corrompendo a efetividade na execução das incumbências do dia a dia, da vida.

Monika e o desejo: sinônimo de opressão, sinônimo de rebeldia, sinônimo de transgressão, sinônimo de fuga, sinônimo de liberdade, sinônimo de poesia, sinônimo de Bergman.

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@petrussanctorum

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3 comentários sobre “Monika

  1. Muito bem articulado, profundo, consistente, sem ponto fora da curva, um arranjo magistral, uma expressividade quase lírica mas nunca pedante. Enfim mostrou bem esse seu ímpeto de expressar suas impressões, esse manejo dos sentidos, sua autoridade lexical e a capacidade de produzir imagens intensas com as palavras. Uma composição muito aguerrida que combina estrutura e substância de maneira bem cadenciada. Adorei!!

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