A formiguinha e a neve – Esperança ou nada

A formiguinha e a neve – Esperança ou nada

Eugenia Câmara

Era uma vez uma formiguinha que saiu para trabalhar e, seguindo seu caminho distraidamente, pensando nos seus problemas diários, boletos a vencer, filhos que não obedeciam, mulher que não queria sexo quando, de repente cai no buraco em uma obra de via pública que a Prefeitura estava fazendo.

Ploft, caiu sem nem saber porque. Cada um que passava ele pedia ajuda. As pessoas olhavam e diziam; “Peça ajuda ao operário”. O mesmo respondeu que nada podia fazer, pois dependia de seu superior. O gerente chegou e avisou que também nada podia ser feito, porque precisava da autorização do proprietário da empresa, uma vez que tal serviço era terceirizado pela Prefeitura.  Na presença do dono da empreiteira é solicitada a retirada do homem daquele buraco. Prontamente ele responde: “Nada posso fazer antes de falar com o Secretário de Obras da Prefeitura”

Enquanto isso, aquela ignóbil criatura continuava com fé e esperança de que em breve o tirariam do buraco e que correria para abraçar seus filhos ranhetas e desobedientes, beijar sua esposa (que parecia a Dona Florinda) e leva-la para a cama e amá-la como nunca tinha feito e depois comer um belo churrasco com muita cerveja e contar aos amigos da sua aventura.

Chega o Secretário de Obras. Olha para baixo e aquele homem preso naquele buraco apertado e diz: “Tststs. Sem autorização do Prefeito, nada pode ser feito.”

Prefeito chega, olha e diz: “Para a retirada desse coitado, serão necessários alguns equipamentos que não sei se temos na Prefeitura. E se não tivermos, tenho que falar com o Secretário da Economia para saber se nossa cidade comporta mais um gasto, afinal estamos em época de eleição. Mas vou ver o que posso fazer. Aguardem.”

Nessas alturas já estava anoitecendo. A crença de que sairia do buraco também estava esvaindo-se. Só lhe restava rezar, pois a esperança já tinha conseguido fugir dali há muito tempo.

Depois de tanto rezar, o silêncio toma conta do buraco. O dia amanhece. Finalmente chegam os técnicos para retirar o homem. Quando conseguem chegar até ele, encontram um corpo sem vida.

Moral da história 1: Não adianta pedir nada aos vivos se não houver moeda de troca.

Moral da História 2: Mesmo a esperança sendo a última luz no fim do túnel, a morte é uma certeza.

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@mecalves

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