Avidez e honra no tempo

Avidez e honra no tempo

Raul Tartarotti 

Em épocas muito passadas, os abastados entediados não aproveitavam suas vidas ocas, porque não existiam ofertas de lazer e compras atraentes aos olhos exigentes dessas criaturas bem nutridas.

As massas de pessoas seguiam rumos cotidianos sem graça no viver e rotineiramente contavam suas desventuras, quase iguais, aos olhos de todos, que em sua companhia vagavam pela próxima busca de motivação diária, surgida nas mãos de alguém mais genial.

Os dias de plenitude de alguns séculos atrás, tornaram-se quase pó hoje, mesmo tendo já sido uma deslumbrante idade de ouro.

Nosso tempo se caracteriza por uma presunção estranha de ser mais que qualquer outro passado. Apesar das ofertas de compras e novas tecnologias disponíveis à carteira de qualquer humanoide a solta no planeta azul.

Mas, a performance intelectual média se aproximou de uma decadência rasa, passível de ser omitida pela envergadura descomunal do ter, em detrimento ao ser.

Na verdade vivemos num tempo muito capaz de realizar, mas não se sabe o que, pois domina tantas coisas que se torna incapaz de ser dono de si mesmo, e se perde em sua própria abundância.

Isso tudo é um pouco do mesmo pensamento do livro “A Rebelião das Massas”, escrito pelo genial José Ortega Y Gasset, considerado de grande importância para o século XX, como foi Karl Marx para o século XIX.

Os indivíduos fragilizam suas ideias proliferadas pela oferta no menu de escolhas diárias, e se tornam fracos pilares de si e de suas bases intelectuais, sempre à mercê de uma nova teoria que desfaz em breve o que era verdade concreta até então.

Nos tornamos criaturas bem mais frágeis que um ventifact, que é uma rocha desgastada, perfurada, gravada, sulcada por areia ou cristais de gelo, movidos pelo vento por milhares de anos. Sofrem o mesmo grande ataque que recebemos nas ofertas mundanas de nosso viver atual, mas a nós fragiliza, nos deixa atrás do que surpreendentemente surge em instantes, nos envelhecendo e desligando do que é novo e aceito como melhor.

A liberdade nos coloca em contato com o desejo, e cria um medo de ser assumido pela incerteza da não aceitação e a provável infelicidade no final.

As ventifacts são feições geomórficas encontradas em ambientes áridos onde há pouca vegetação para interferir no transporte de partículas eólicas, onde há ventos fortes com frequência e onde há um suprimento constante, esmagador, de areia. Assim como nós, parece impossível essa rocha se manter de pé, mas a natureza tem seus mistérios e surpresas.

Quem poderia retirar o suco dessa rocha que nasce dura para sorver em nosso sangue suas benesses. Ela que, mesmo perdendo sua estrutura original, se torna outra pedra sem perder a beleza. A nós, cabe a inveja dessa manutenção da avidez e honra no tempo, esse mágico que sempre nos tira um pouco.

 

@raultarr

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