O papel de cada um

O papel de cada um

Por Geórgia Alves

Levei um tempo para entender o que significava aquele papel na mão do companheiro e, se deus for mesmo brasileiro e assim o quiser, novamente, em breve, presidente do Brasil. O toque fatal daquela mão que se não torturou, defendeu a mão que o fez, sobre o ombro do ex-metalúrgico, incomodou bastante. Uma imagem fala mais do que mil palavras.

O papel na mão do companheiro e eterno presidente desta pátria até então tão mal amada, que dizer que se alguém enviar um arquivo, você deve imprimir e ter em mãos. Firmar os olhos no papel quer dizer tanta coisa, que é impossível compreender, dada a nossa simplicidade e imediatismo, senão com algum tempo para refletir, para além dos afetos. “É verdade, Bolsonaro, o que me disseram? Que você foi um dos deputados mais bajuladores do meu governo?”

E o agora presidente, desse agora que é um hoje que logo será um ontem em que ninguém se entende, e a maioria não vê mesmo porque é preciso lidar com o mal para enxergar de onde vem a crueza dos sentimentos. A mão no ombro é o peso da nossa carga de trabalho, do que é preciso suportar mesmo aos 77 anos e com uma história sobre os ombros que foram, tantas vezes, prestados em alinhamento para encontrar um meio termo.

Termo que Lula segurava nas mãos, impresso, por escrito e descrito. Ali, impresso, para mais tempo em que dure o instante de se olhar em um arquivo digital, a prova de que se o que dizem é verdade, preciso trazer um papel para verificar a veracidade dos fatos diante dos olhos fugidios. Não se enxerga a verdade, em se tratando de olhos treinados e vazios, cegos pela cobiça, o poder, o uso da força e a completa ausência de compaixão ou respeito, se não for assim. Com um papel na mão. Com uma imagem forte como essa, fui dormir.

Dormi sabendo que minha escolha, como outras, não é apenas a mais assertiva como se trata do acerto de contas, com este agora, com um ontem, o futuro, e de todos os lados. Por todos os aspectos, estético, ético, afirmativo e compassivo, Luís Inácio Lula da Silva fez ainda mais por merecer meu voto. O compromisso se firma com dada burocracia.

A burocracia que o então desse agora pernicioso dispensou na compra de imóveis feita apenas pela moeda de papel, muito mais difícil de ser rastreada nos dias de hoje. É bem assim, é assim a verdade. Aquela que ainda não é possível dispensar diante da fragilidade da palavra dos homens, da falta de compromisso, da capacidade que aprenderam desde cedo de fugir da verdade, com modos escorregadios. A palavra impressa contra a mão que pesa em nossos ombros.

Lula mostrou que veio firmar também conosco um compromisso e manteve a ocupação dos olhos e das mãos, não no ombro de um militar que desdenhou do valor de nossas vidas, dos que se foram por causa de um vírus, pela falta de ar que acometeu a tantos e tantas. Manteve suas mãos ocupadas com o papel que cabe a um presidente. Ah, já ia esquecendo de dizer, neste mundo de malícias, modos de macho, que logo vi a margarida na lapela, símbolo da luta empreendida contra a violência e exploração sexual de meninas e adolescentes, esta logo vi. Logo reconheci.

@georgia.alves1

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